Abro a janela e dou um rugido. O som se desintegra, nem chega ao andar de baixo. Eu grito de novo e novamente a minha angústia de falta. Falta de palavras, de modos de dizer. Sempre falta uma palavra. Todas. Eu tive uma formação escolar precária, não por estudar em escolas ruins, eu não costumava ir para escola. Faltava muito, sempre doente, sempre mentindo. Os doentes sempre unem as famílias, ter um doentinho para cuidar é quase um status e por isso minha família nunca ligou e eu não ia, ficava entre formiguinhas vermelhas na sala, jogos eletrônicos e livros amarelados. Uma formação muda, porque a escola não é só para o contato com o conhecimento, é para aprender a dar nó em cadarço e mandar tomar no cu. E eu dou outro rugido e sinto a garganta cortar com esse. Um rugido monossilábico que tenta significar todas as palavras que eu não sei dizer, que eu não consigo articular. O vento gelado tenta mostrar que não adianta insistir, os muros, os prédios, os carros, ninguém quer saber do meu rugido, ninguém quer secar meus olhos. Mas eu grito para o vento, porque eu aprendi a mandar se foder, sozinho. Mesmo sem ir para escola eu tive minha primeira namorada, eu aprendi a me masturbar pensando nela. E a mandar se foder. Tomar no cu. Mas não aprendi as palavras, porque as palavras pedem variedade, prática. Todo bom falador sempre fala demais, porque é na conversa que a fala trepa com as palavras. Malditas noites sem dormir e folhas em branco. E o verbo é sempre o mesmo, o substantivo sempre comum. As formiguinhas não eram de falar. Um helicóptero passa, eu dou um rugido para ele, mas ele passa. E eu quase não tenho voz e mais um rugido e ela se vai e então eu cuspo, com todos os pulmões, com todo o catarro e o vento gelado, novamente professoral, devolve meu cuspe, na minha cara, na minha boca, assim, para que eu perceba que o problema é meu, não das palavras, da falta.
sexta-feira, 16 de outubro de 2009
terça-feira, 29 de setembro de 2009
A Editora, a confusão e o menino gordo
Estou com uma dor nas costas que está me tirando o ânimo.Na verdade, muita coisa vem me tirando a vontade de limpar os ladrilhos.Mas, vamos falar do que importa, ninguém quer saber do quanto pago de plano de saúde, não é?O lançamento do AlterEgo foi um estouro. Caixas e caixas de livros esvaziadas. Um sucesso! (Tirando as críticas negativas em relação ao meu conto, para compensar os elogios ao outro que publiquei no Território V).Agora, já começo a trabalhar no Galeria do Sobrenatural, recebi hoje os textos enviados pelo Silvio Alexandre.E mesmo com dois textos ficcionais para entregar, as leituras e trabalhos do mestrado e a insanidade de pegar mais projetos do que meus dedos permitem, eu ainda arranjo um tempinho para ler por diversão e fujo hora ou outra para O Prédio o Tédio e o Menino Cego, do Santiago Nazarian, que está remoendo os meus fantasmas, mas depois digo o motivo; e também para o A Espinha Dorsal da Memória, do Bráulio Tavares, que já está na lista dos meus escritores favoritos, o conto Sympathy for the Devil é uma das coisas mais saborosas que já li.PS: a capa do Galeria para vocês...terça-feira, 22 de setembro de 2009
Lançamento Alterego
Prezados Todos, e mais um projeto nosso sai da virtualidade enigmática das possibilidades e se imprime em offset 90 gramas. AlterEgo, seleção de contos organizada por Octavio Cariello. O lançamento ocorre na sempre receptiva Livraria Martins Fontes, que está ali perto do metrô brigadeiro, Avenida Paulista, 509. Das 15h30 até 18h30. Lá fecha cedinho, de sábado.No time, temos: Roger Cruz, GianDanton, Weberson Santiago e Marcela Godoy, entre outros de igual talento.Apareçam, prestigiem, comprem (claro).Abraços e nos vemos.sexta-feira, 18 de setembro de 2009
quarta-feira, 16 de setembro de 2009
sexta-feira, 11 de setembro de 2009
De papos e editoras ou a literatura precisa de dentes
Eu tinha um amigo que queria ser correspondente de guerra. Não era um Amigo, um colega no curso de comunicação, que logo que eu terminei com uma namorada partiu para cima dela, mas não conseguiu nada. E nem virou enviado de guerra, estava, da última vez que o vi, no site sobre futebol. Tanto esse cara, quanto outros no curso de comunicação tinham uma energia que eu invejava, queriam desbravar o mundo, tornarem-se âncoras pops dos melhores jornais e colunistas dos cadernos mais respeitados. E eu lá, no meio, todo comedido pensando que a única coisa que queria era poder contar as minhas histórias, compartilhar minhas insanidades e pagar as contas do mês. Eles queriam mudar o mundo, não mais com aquela visão marxista do jornalista sinônimo de esquerda, o mundo seria mudado de dentro para fora, seus mundos. Então saí do curso de comunicação, sem dinheiro para bancá-lo e fui fazer Letras. Logo senti que a energia dava lugar para um ambiente quase de gesso. Estudantes bem mais velhos que eu, almejando o funcionalismo público, dar aula na rede, na prefeitura de preferência e nunca mais se preocupar em procurar emprego. E eu só querendo escrever, compartilhar meus textos e aprender lidar com a palavra de forma mais de bom trato. Desiludido, percebi que o jeito era buscar sozinho e encontrei as oficinas literárias e o blogue. Meu blogue. Meu palanque, mesmo que ninguém estivesse ouvindo, os textos saiam das gavetas e ficavam mais reais. Não foi fácil. E por que estou falando tudo isso?
No dia 3 de setembro fui com Nelson de Oliveira, Laura Fuentes e Andréa Del Fuego (sim, dividi espaço com André Del Fuego e nem tirei uma foto, de chorar...) bater um papo com alunos do 3° anos do curso de jornalismo, na PUC São Paulo. Fomos a convite do jornalista e escritor Wladyr Nader, atual coordenador do curso, que nos pediu para papear com os alunos sobre o Blablablogue e sobre nossa jornada literária. Um grupo bem diferente daqueles que citei lá no começo, menos enérgicos, mais contemplativos. Talvez pela chuva, pelo ar condicionado. Mas foram atenciosos, mesmo que lendo seus emails particulares, ficaram ali percebendo nossas palavras. Falamos da biografia de nossos blogues, das motivações para postar, dos temas, das idiossincrasias que só um escritor tem. Ou acredita ter, não sei.
No papo, pude perceber que ando mais certo de algumas coisas que digo do que imaginava e que outras não tem sentido algum. Mais certo que mesmo que eu tente, esse caminho de literatura e falta de sono já é o meu caminho e gosto mesmo é de falar disso. Como disse o Nelson, nossa bolha dentro desse mundo caótico. Mas certo também que a maioria das pessoas não está nem aí para isso, cada um com seu fardo, que a literatura soa como algo pouco prático numa era pós-aquário. É como falar de vitrolas, mesmo que ela esteja se manifestando em blogues, celulares. É como se ela precisasse desses suportes para não desaparecer, como uma senhora que ainda tenta usar roupas de garota, fazer plástica... Entrei num barco já com o casco furado, mas vou naufragar sorrindo, se isso acontecer, pode crer.
sexta-feira, 4 de setembro de 2009
escritor Kizzy Ysatis e Liz Vamp são agredidos na casa A Lôca em São Paulo
Amigos, o dia começou com essa triste notícia, logo cedo falei com o próprio Kizzy, ele só pedia para que não deixassem de denunciar. E foi o que fiz o dia todo. Ligando para veículos de mídias e mandando emails para amigos e pessoas que tem voz no mundo real e virtual.Nem posso dizer a dor que senti, quando vi a matéria do G1. O Kizzy e eu somos irmãos, como todo irmão nós brigamos e nos abraçamos logo em seguida, estamos bem e mal, damos furos um com o outro, mas sempre um tenta cuidar do outro e aqui é a minha vez.Ajudem a denunciar, cliquem na notícia, comentem e divulguem. Isso não pode ficar assim. Não pode ser mais uma história de impunidade. Conto com a ajuda de vocês.


